(artigo nota 10 do Eloy uhuuul! hahahah)
“Como considerar a crítica a respeito do filme Ensaios sobre a Cegueira de um grupo de pessoas que de fato não viram o filme?” Este comentário me soou imediatamente (e deve estar soando a você também agora) preconceituoso e egoísta, e talvez não deixe de ser. Está mais do que comprovado que os deficientes visuais são completamente capazes de apreciarem uma obra de qualquer natureza, suprindo a falta de contatos visuais por outros sentidos. Porém ao desenrolar da conversa sobre o grupo de manifestantes que pretendia protestar contra o filme, a argumentação do dito cujo para defender seu comentário tornou-se totalmente razoável.
Primeiro, o cidadão não estava se referindo ao grupo de pessoas cegas do mundo, e sim ao grupo de cegos que se sentiram ofendidos pelo filme, um grupo percentualmente muito pequeno, aliás. Segundo, talvez este grupo não tenha mesmo assistido ao filme, tenha tido somente contato com o release e comentários sobre a obra, ou mesmo aqueles que leram o livro em braile ou ouvido não tenham compreendido a essência do tema.
O grupo em questão, a associação de cegos dos EUA, planejava uma manifestação para a estréia no país do filme “Ensaios Sobre a Cegueira”, dia 03/10. Na época, o presidente da associação, Marc Maurer declarou que os cegos foram retratados como verdadeiros monstros o que ele vê como uma mentira e justificou a manifestação dizendo que o fariam por acreditarem que a exibição do filme (altamente ofensivo e assustador segundo eles) fará com que a inclusão das pessoas com deficiências visuais na sociedade seja dificultada. A idéia era estarem em frente às salas onde o filme foi exibido pela primeira vez em pelo menos 21 estados americanos com cartazes estampados com os dizeres: “Eu não sou ator. Mas eu ajo como uma pessoa cega na vida real”.
Até o início da nossa conversa um tanto quanto polêmica, não tínhamos lido nada que indicasse que a manifestação tinha de fato ocorrido. Mesmo assim a simples idéia de alguém planejar uma manifestação como essa, para mim, indica que estamos lidando com mais um caso de má interpretação de uma grande obra.
O diretor Fernando Meirelles responsável pela adaptação do livro de José Saramago, foi escolhido pelo autor para dirigir Ensaios após anos de reluta em filmá-lo, talvez por já prever reações deste tipo por parte do público. A missão do diretor em não vulgarizar o filme não foi nada fácil e certamente cumprida, contando inclusive com a aprovação do escritor que após assistir ao resultado do trabalho de Meirelles, disse estar tão emocionado quanto estava ao terminar de escrever o livro. Ao fazer esta afirmação fica claro que a filmagem de sua obra não caiu em mãos erradas, como ele disse temer, e que sua violenta historia sobre degradação social que colaborou para que chegasse a ser um autor ganhador do prêmio Nobel, foi filmada com a mesma intenção com a qual foi escrita.
A grande questão é que o filme, apesar de seu nome, não é sobre o mal específico da cegueira, como o título deste artigo humildemente sugere. Sua história trata de uma situação que aconteceria se qualquer outro mal/deficiência assolasse o planeta terra e seus habitantes de um dia para outro sem explicação e transformasse as condições de existência que conhecemos hoje. Uma história delicada e que nos faz pensar em como as condições em que vivemos são frágeis e cômodas. A comunidade do filme não tem de se adaptar a um grupo de pessoas com algum tipo de deficiência e vice-versa como é o cenário que estes manifestantes vivem hoje, eles se deparam com um mal inexplicável, inédito e sem nenhuma luz, alem da luz branca que inunda suas vidas, que indique sua solução.
Dificilmente um filme com um tema pouco comercial que chega a incomodar sua platéia ganha as salas do circuito, digamos assim, popular de cinema. Raramente também um livro consegue ser tão bem resolvido nas telas, o que se torna um feito ainda mais admirável quando levamos em conta a complexidade do assunto. Uma belíssima co-produção entre equipes do Brasil, Canadá, Japão e Inglaterra que se tornou um projeto referência e está colaborando para que o mundo entenda que os brasileiros podem contribuir para o cinema mundial com muito mais do que a fórmula: violência-sexo-drogas. Lamentável que uma obra desta importância tenha sido levada para o lado “pessoal” da questão e tenha de alguma forma ofendido alguém.
Em um comunicado sobre a manifestação, o diretor usa a definição de que o filme é sobre o triunfo do espírito humano quando a civilização entra em ruínas. Ou seja, se o espírito humano pode sobreviver a tais condições em uma obra de ficção, o filme pode estar dizendo que uma simples condição física especial não seja fator delimitante da convivência entre os seres. Sob este ponto de vista, a mensagem é exatamente contrária aquela que os manifestantes captaram e age muito mais a favor da inclusão do que incitando o preconceito. Mostra que os humanos podem se unir por uma causa maior, mesmo que esteja em jogo a sanidade e decência dos indivíduos. É a misteriosa parte de existência humana para a qual não se tem explicação, sobre a qual não temos controle algum e que de alguma forma sempre nos surpreende e une. A diferença está entre ver e enxergar onde ela está presente seja em um filme ou nas atitudes cotidianas.